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Curso de Férias JULHO 2010
Revista Crescer, maio 2010
 

Conviver com arte

Frequentar exposições de quadros ou fotos, investir em curso de artes, chamar a atenção para o formato do brinquedo, o tom da luz que bate na planta, a textura dos móveis da sala, as ilustrações dos livros infantis, as canções do seu iPod. Há muito o que fazer quando o assunto é arte e criança. É hora de experimentar!


Simone Tinti e Fernanda Carpegiani

Tinta, papel, melodia, emoção. Técnica, pensamento, habilidade, imaginação. Prática, espontaneidade, gosto, representação. Criatividade, ritmo, limite, fascínio, imitação. Estética, crítica, forma, dança, encanto, liberdade, descobertas... Mas isso é arte ou infância? Difícil vai ser você achar duas palavras que se entrelacem tanto. É tudo coisa de criança, é tudo coisa de artista. É tudo meio e é tudo fim. E uma e outra acontecem sob regras e tendências, mas sempre com um quê de natural.

Quando esquecemos de que somos seres prontos para nos emocionar, lá vêm as crianças para nos lembrar. E por uma razão muito simples: as crianças ainda se sentem livres para experimentar. Por isso elas querem se lambuzar de tinta, não se importam de colorir o elefante de vermelho ou misturar xadrez e bolas no modelito escolhido para ir à casa da avó. Elas estão provando. Olham à volta, percebem tudo e não julgam. “A criança geralmente escolhe o que o adulto descarta, não dá valor: pedrinhas da rua, caquinhos, restos de inseto, papel amassado. Aí elas investigam, recolhem, combinam, descombinam, criam. Somos todos seres criativos e estéticos por natureza e esta é a maneira de nos relacionar com o mundo”, diz Sylvia Helena Boock, que há 31 anos desenvolve trabalhos de artes com crianças em escolas e em seu ateliê.

Apesar de naturais, essas pequenas descobertas das referências estéticas – que aparecem para as crianças desde bebês – também são passíveis da interferência dos adultos, claro. Nós formamos os padrões e as regras e é bem fácil escorregar no “certo” e “errado”, no “isso é bom” e “isso é ruim”. Nesse começo, o melhor é dar as mãos e aproveitar: sentir junto as texturas, se sujar, experimentar muito. E fomentar. O músico Hélio Ziskind, aquele que faz seu filho cantar e dançar com a turma do Cocoricó, diz que incentivar a criança a conviver com a arte é como colocar minhocas dentro de um jardim, condição fundamental para que ele seja de fato um jardim fértil. E por dois motivos: o primeiro porque é prazeroso até quando provoca a tristeza (o que tem de mau chorar com a animação UP – Altas Aventuras ou com um filme de cachorro?). E o segundo, Hélio nos explica: “A música, a literatura, o teatro, as artes visuais são como bichinhos que estimulam as crianças a serem criativas e a expandirem suas visões de mundo”. Uma pesquisa do museu Isabella Stewart Gardner, de Boston (EUA), comprova essa “fertilização”. Os pesquisadores observaram cerca de 250 crianças de 3 a 5 anos e verificaram o quanto o contato com as artes desenvolve o pensamento crítico e ajuda no aprendizado. Notaram ainda um outro efeito colateral: ao conversar com seus colegas, trocar gostos e impressões, as crianças aprendem a respeitar diferentes opiniões e, portanto, a diversidade.

É COMO BRINCAR 

Conviver com arte pode ser muito mais “cotidiânico” do que você pensa. Dar repertório à criança é, sim, visitar uma galeria de arte ou assistir a shows e peças teatrais. Mas é também dar lápis e tintas para o seu filho encher um papel, é inventar com ele uma música na hora do banho ou criar uma história maluca com seus personagens favoritos. “Para elas, fazer arte já é algo espontâneo, como uma brincadeira. Elas desenham com um palito na areia da praia, gostam de música desde bebês. Isso é maravilhoso”, diz Paula Ruggiero, psicóloga e coordenadora da Escola de Artes Integradas Grão do Centro da Terra, uma parceria entre a escola Grão de Chão e o Teatro do Centro da Terra, ambos de São Paulo. Esse contato faz com que seu filho se desenvolva, aprenda a viver coletivamente, a expressar suas opiniões, a ter mais concentração e a lidar com suas fantasias. “Ele vai se tornar um adulto com mais jogo de cintura, com um olhar mais humano para as coisas, não importa qual carreira for seguir”, diz Genny Chaves, psicopedagoga e coordenadora dos cursos de pré-formação da escola de música Tom Jobim. Isso mesmo: o contato com a arte não é só para o seu filho se tornar um artista no sentido profissional. Faz parte de um desenvolvimento saudável. Por isso é preciso ter espaço e tempo reservados. Ela quer ir ao casamento de chinelo? Você explica que naquele momento não vai ser possível, mas negocia em seguida. Sugira uma brincadeira com um amigo em casa depois usando somente suas roupas, por exemplo. A criança tem que se sentir autorizada a ter seu próprio gosto, fazer escolhas porque é com a ação que ela mostra seu jeito de pensar. “Assim ela vai criar o que podemos chamar de um “estilo” de ser. Dar este espaço é permitir que ela desenvolva sua sensibilidade para o mundo”, afirma Sylvia Helena.

É com a arte também que a criança experimenta outros jogos da vida. A escultura de argila pode tomar a forma que quiser mas, se não tiver uma base sólida, pode desmanchar toda. O desejo é desenhar uma menina com vestido vermelho e calça marrom, mas se essas cores não estão na caixa de lápis, a solução é ter outra ideia. “E qual é o instrumento básico da arte? A criatividade. E é ela que será usada na hora de pensar em uma solução para algum problema, em uma situação de emergência qualquer da vida”, diz Kátia Canton, escritora, ilustradora e PhD em artes pela Universidade de Nova York.

Está ainda difícil de entender a importância desta relação? Olhe para você. Qual foi a última vez que se surpreendeu com a arte? Que sentimentos provocaram em você? Pode ser a maluca versão do filme Alice, de Tim Burton, ou a bolsa artesanal da loja de esquina da sua casa ou uma poesia. É como tirar a venda dos olhos, não? A gente aprofunda a percepção para tudo, vê mais. Olhamos para o céu e não são mais somente nuvens: vemos um cachorro, um dinossauro, uma cadeira. Nos damos conta de formas, cores, texturas e sentimentos que dançam ali à nossa frente, nos provocam, fazem pensar.

TEMPO E SILÊNCIO 

A ansiedade, porém, tem que ficar de lado. Quer conhecer todo o Museu de Arte de São Paulo (Masp) de uma vez em meia hora? Saiba que nenhuma bailarina de Edgar Degas e nenhum jardim de Claude Monet conseguem ser vistos apressadamente. Sabe quando seu filho quer ver uma fileira de formigas tomando seu rumo com as folhinhas nas costas e ele simplesmente para e vê? Apreciar uma obra de arte também é assim: tem de desacelerar para contemplar. E não precisa explicar cada obra ao seu filho, ficar falando sem parar. “Não é preciso ‘traduzir’ os significados. A obra de arte já cumpre esse papel”, afirma Felipe Chaimovich, curador do Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo. E não há problema se a criança não prestar muita atenção – ela pode se entreter mais com as rampas da galeria ou com o jogo de luzes. Se seu filho sair da exposição do Degas encantado com a bailarina Marie do artista já valeu a pena, a experiência vai marcá-lo. E é esse o papel da arte: nos dar a sensação de que nada será como antes,

AGORA É HORA!

• Acompanhe a programação de artes em sua cidade e varie o repertório de seu filho, levando-o a exposições, espetáculos de teatro, dança e música.

• Mostre à criança as formas dos objetos, a beleza de uma fotografia, a mistura de cores de uma roupa, por exemplo, ou a diferença de estilos musicais.

• Literatura infantil é um instrumento incrível. As boas obras mostram a arte de usar bem as palavras e como elas nos emocionam. Já as ilustrações dão referências estéticas.

• Deixe que seu filho viva a experiência artística sem querer interpretar tudo para ele.

FONTES: MARA RITA ORIOLO, COORDENADORA DO PROGRAMA SESC CURUMIM NA UNIDADE DE PINHEIROS, EM SÃO PAULO; KEREN ORA KARMAN, COORDENADORA DO TEATRO DO CENTRO DA TERRA E DA ESCOLA DE ARTES INTEGRADAS GRÃO DO CENTRO DA TERRA. 

AGRADECIMENTOS: MARCO GIANNOTTI, AUTOR DO QUADRO RETRATADO NA FOTO