Artes moldam formação da criança
ROSELY SAYÃO
Por mais que os pais saibam que não há como preparar o filho para o futuro profissional, eles não desistem. Querem porque querem que o filho se dê bem no futuro e pretendem garantir um preparo que proporcione a ele o que consideram as condições mínimas para uma vida confortável no futuro.
Para isso, não poupam esforços: escolhem as melhores escolas, matriculam a criança ou o jovem em cursos de línguas, informática e esportes, fazem marcação homem-a-homem sobre a vida escolar. E o que tem acontecido com a garotada?
As escolas de línguas não sabem o que fazer para dar conta da tarefa a que se propõem porque a garotada -adolescentes inclusivenão se concentra, não se dedica, faz bagunça em sala etc. Tudo aquilo de que os professores costumam reclamar que acontece nas escolas -a chamada indisciplina- acontece também nesses cursos. Às vezes, até pior.
As aulas de informática são absolutamente desnecessárias. A molecada sabe muito bem se virar com o computador. Nascidos já na era desse instrumento, eles sentam na frente dele e se perguntam para que ele serve e não como ele funciona. E logo descobrem.
E as escolas de esportes? Bem, o tal espírito de equipe que se diz aprender ao praticar um esporte acaba se transformando em uma única questão: espírito competitivo. E este, convenhamos, não é preciso curso para aprender, já que o mundo atual gira em torno dele.
Quer dizer que nada disso funciona ou é benéfico? Também não é assim. Mas talvez o campo das escolhas dos pais esteja excluindo outras possibilidades. Vamos refletir um pouco sobre esse preparo dos filhos para o futuro.
Como estará o mundo quando os filhos forem adultos? Não dá para imaginar. Basta uma retrospectiva nos últimos 20 anos para constatar como as mudanças reviraram o mundo do trabalho, das relações, da família. Profissões que tinham prestígio o perderam, novas profissões e cursos surgiram, o emprego mudou e o currículo desejado, também. Outro dia, ouvindo um especialista em mercado de trabalho, notei que ele destacou que a tendência é a de que os empregos sejam sazonais no futuro, ou seja, as pessoas serão contratadas para projetos que têm começo, meio e fim.
Precisamos pensar nisso e considerar também a formação pessoal do futuro adulto que terá de saber administrar seu tempo, saber esperar, ter disciplina e organização e muitas outras características para sobreviver. Mais: é preciso levar em consideração principalmente que a sobrevivência dos filhos no futuro não é apenas material mas também emocional e simbólica.
Pois um campo que muito colabora para essa formação, tanto no presente quanto no futuro, é o campo das artes. São poucas as crianças que são matriculadas pelos pais para aprender um instrumento, para aprender a desenhar, a pintar etc. E, quando são levadas a isso, logo desistem e são apoiadas pelos pais nessa atitude.
Pelas artes, a criança e o jovem podem aprender de modo criativo o sentido da concentração, da disciplina, do esforço e da organização. Eles aguçam a sensibilidade e aprendem a valorizar o belo. E eles podem, inclusive, entender de modo mais concreto o quanto de tenacidade e perseverança é preciso para viver.
Uma professora de música contou que crianças consideradas hiperativas aprendem a se conter pelo menos um pouco e a controlar sua concentração. E que crianças tímidas aprendem a se expressar, enquanto as muito extrovertidas começam a dar mais valor ao silêncio e a suportá-lo melhor.
Talvez os pais devam considerar também essa possibilidade quando pensam na formação dos filhos. As artes têm ligação direta com as humanidades, afinal. E hoje, talvez, seja essa a maior necessidade para os mais novos.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)
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